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Brasil bate pico de tráfego de internet, mas infraestrutura de rede está preparada

Em meio à crise do coronavírus, volume de dados chegou a 10 terabits por segundo; operadoras pedem uso responsável, enquanto especialistas afirmam que aumento da demanda pode ser suportado

24/03/2020 02h30
Por: Maico Zanotelli
Fonte: Estadão
Reprodução | Oeste em Foco
Reprodução | Oeste em Foco

O aumento no número de pessoas que estão sem sair de casa para trabalhar e se divertir, devido ao avanço do novo coronavírus no País, está provocando alta no tráfego de internet nacional. Nas noites dos últimos dias 18 e 19 de março, o País bateu recorde em volume de dados, com 10 terabits sendo enviados por segundo (Tb/s), segundo dados do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Enquanto as operadoras ponderam que a capacidade das redes não é infinita e já pedem “uso responsável” aos usuários, especialistas e entidades do setor afirmam que o crescimento até aqui é residual e a infraestrutura está preparada para aguentar a alta na demanda. 

Segundo Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de projetos especiais e desenvolvimento do NIC.br, entidade que supervisiona a governança da internet no País, o uso de dados aumentou entre 5% e 10% ao longo do dia desde a semana passada. “O pico de 10 Tb/s aconteceu num momento em que, por conta do covid-19, mais pessoas passaram a acessar a internet para fins como trabalho remoto, estudo à distância e busca por entretenimento”, afirma. “Mas não deve ser visto de forma isolada, porque o crescimento tem sido uniforme nas últimas semanas.” 

Já de acordo com Julio Sirota, gerente de infraestrutura do IX.br, entidade do NIC.br responsável por criar infraestrutura para trocas de dados entre as redes das operadoras e de grandes empresas, o tráfego dos últimos dias se assemelha a de um fim de semana, com bastante demanda por streaming de vídeo. 

Sob controle

Sirota avalia que é pouco provável que o volume de tráfego exploda nos próximos dias. “As pessoas não vão passar a consumir duas ou três vezes mais tráfego. Já recebemos pedidos dos provedores de conteúdo para aumentar a capacidade, mas essas empresas sempre se antecipam a possíveis aumento de demanda.” 

A antecipação da demanda é algo que as operadoras também fazem, afirma Giuseppe Marrara, diretor de relações governamentais da fabricante de equipamentos para telecomunicação americana Cisco. “Com ou sem coronavírus, o tráfego de rede cresce de 20% a 30% por ano, então as operadoras trabalham com capacidade que se antecipa à demanda de seis a doze meses”, afirma. 

A visão é compartilhada pelas empresas que constroem e mantêm as redes em funcionamento. “Notamos um aumento no tráfego de dados, mas até aqui é um volume residual. Não vemos risco imediato para os próximos dias”, diz diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Empresas de Soluções de Telecomunicações e Informática (Abeprest), Helio Bampi – a entidade atua na instalação e manutenção de redes de fibra óptica e antenas de 3G e 4G no País. 

O que pode acontecer, segundo Marrara, é que pontualmente pode haver problemas, especialmente em bairros residenciais. “A demanda que existe em centros preparados para alto volume de tráfego, como a região da Avenida Paulista, vai se diluir em outros pontos da cidade que podem não ter a mesma infraestrutura”, diz. Na visão do executivo da Cisco, as operadoras têm habilidade para fazer a gestão da rede. “É possível identificar pontos que estão consumindo muita banda além do normal e baixar sua capacidade para garantir que todos possam usar a rede.”

De acordo com a Associação NEO, que reúne prestadoras de pequeno porte, os associados já perceberam aumento no tráfego de suas redes nos últimos dias – no interior do Rio de Janeiro, um deles já registra alta de 25% em relação ao dias pré-pandemia. As empresas também observaram uma migração do tráfego de internet das redes móveis para a internet fixa. 

“Até agora, as operadoras têm absorvido bem essa demanda”, disse o diretor-geral da Associação NEO, Alex Jucius. Ele afirma que a associação está em contato direto com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para adotar medidas de garantia da qualidade de rede e serviço.

Na tarde desta sexta-feira, 19, o Sinditelebrasil, que reúne as principais operadoras do País, divulgou comunicado pedindo aos usuários “uso responsável” das redes, evitando sobrecargas. “Os recursos de rede não são infinitos”, disse a entidade, em comunicado enviado à imprensa. O grupo, formado por Algar Telecom, Claro, Nextel, Sercomtel, Oi, TIM e Vivo, também vai se reunir em um comitê de crise para alinhar prioridades e medidas, incluindo a conectividade de hospitais, unidades de saúde e estações de telecom, que controlam e distribuem o tráfego e as antenas. 

O posicionamento de “uso responsável” segue recomendação da Associação Interamericana de Empresas de Telecomunicações (Asiet), a qual pertencem Vivo e Claro, pedindo a usuários para priorizar home office e estudos em horário comercial, deixando atividades de lazer para a noite. Usar redes fixas em detrimento das móveis, preferir ferramentas colaborativas sem vídeo e fechar páginas que não estejam em uso também são algumas das orientações. 

Definição padrão

Para manter a qualidade do serviço, recomendações mais duras já foram adotadas na Europa. Na Espanha, em quarentena desde 15 de março, a Telefónica pediu para a seus clientes que priorizem o uso da internet para quem trabalha ou estuda em casa durante o dia e chegou até a sugerir o uso do telefone fixo. A União Europeia também pediu a empresas de vídeos – como Netflix, YouTube e Amazon Prime – para que reduzissem a qualidade de suas transmissões, a fim de não sobrecarregar as redes. 

A medida foi acatada pelas companhias. A Netflix, por exemplo, vai reduzir a transmissão de dados em até 25%, conforme perceber a demanda das redes. Procurada pelo Estado, a empresa enviou posicionamento dizendo que não descarta adotar a prática pelo mundo. “Trabalhamos com governos de todo o mundo e aplicaremos as mudanças conforme for necessário em outros lugares”, diz a nota. Já o YouTube diz que as medidas por enquanto só valem para a UE – pelos próximos 30 dias, os europeus não terão vídeos em alta definição ou 4K, assistindo as imagens na chamada definição padrão (480p).

Na visão de Marrara, da Cisco, o streaming não preocupa. “As empresas já fazem essas medidas de redução de qualidade normalmente, conforme percebem instabilidades na rede”, diz. “O mais difícil será lidar com o upstreaming, isto é, com as pessoas transmitindo conteúdo para a rede.

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